O jogo divino do Chaves

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Chaves, nossa criança interior


*Por Alú Rochya

O espírito e a alma de Roberto Bolaños ou, como melhor o conhecemos, o Chaves, estão caminho de casa. Sabemos -mesmo que geralmente não o lembremos- que não somos de cá mas de lá. E pra lá é que ele partiu. Porém, graças à divina tecnologia, Chaves e sua turma continuarão por cá ainda por um bom tempo, fazendo a festa de meninos, adolescentes, adultos e até idosos. Televisão mediante, pode se dizer que o Chaves segue e seguirá por aqui tão vivo quanto sempre.

Assim será, sim. Mas como se consegue essa perpetuidade? O que é aquilo que fez que um programa da década de 1970, singelo e de baixíssimo custo, sem palavrões, sem peitos nem bundas pra fora, sem prêmios, sem alardes de produção, sem violência nem manipulações maniqueístas continue seduzindo a públicos tão diversos, batendo recordes de audiência

Sem dúvidas que há causas óbvias. Na infância há denominadores comuns, a gente sente-se unida com outras crianças e a fantasia nos blinda das absurdas condições de uma realidade onde as pessoas parecem estar em guerra o tempo todo. Todos sabemos que, de um jeito ou outro, quando criança fomos alguma coisa parecida com o Chaves, com o Quico, com a Chiquinha.

Ao mesmo tempo que nos leva a voar nessa fantasia de nosso saudoso mundo infantil, Chaves atesta a pobreza e o abandono reais de milhões de crianças em América, esperançosas na chegada de um Chapolim que as salve de todo mal. E nesses dados podemos achar razões para o poder de atração da proposta.  

Porém, tem alguma coisa a mais. No fundo existe uma empatia singular, um laço indestrutível que nos une a Chaves. Qual o segredo? Em boa parte, é revelado pelo próprio Bolaños quando sinaliza que “Chaves, ainda que carecendo de quase tudo, é otimista, aproveita a vida, brinca, se emociona e tem o maravilhoso dom que é a vida”.



Acho que aquilo que nos une a Chaves não é o que está por fora senão o invisível, o que não enxergamos mas sentimos, alguma coisa essencial que nos revela e nos faz reconhecermos antes que pessoas como espíritos. No tempo da criancice a gente ainda está aqui com boa parte das memórias de lá, lembrando que somos um espírito com uma alma-guia. E nos comportamos de maneira mais livre, sem os condicionamentos que nos impõe a sociedade. Podemos ver as carências materiais porém como nos sentimos espíritos as limitações materiais nos resultam relativas e compreendemos algo que não deveríamos esquecer quando adultos: a vida é um presente maravilhoso e uma grande brincadeira, que nos possibilita apreender muita coisa de nós mesmos, abrindo o caminho de nossa evolução.

Na vila de Chaves falta comida mas sobram valores (caráter, compaixão, solidariedade, honestidade), falta luxo mas tem simplicidade, carinho e alegria. Demostra-se que a verdadeira experiência humana, a passagem por este planeta, não visa objetivos materiais senão espirituais, intangíveis, transcendentais. Aprendizados, sentimentos, sentidos de vida, coisas que, sim, poderemos levar conosco quando deixemos o mundo.

Bolaños soube dotar Chaves de uma criança interior - que não é outra coisa que a alma- e fazer que essa criança fosse a guia da sua ação. Intuitivamente, sabemos que é precisamente isso o que temos de fazer: agir com as habilidades e possibilidades do adulto guiados por nossa criança interior, atendendo os ditados de nossa alma. E é isso o que Chaves nos mostra o tempo todo. Nos desafiando a aceitar a vida sem dramatismos, na brincadeira, com humor, guiados por aquilo que os hindus chamam de lila, o jogo divino do autoconhecimento. E por isso, admiramos e queremos tanto a Chaves, porque ele nos ajuda a manter viva nossa criança interior e assim poder intuir que a vida tem um sentido e que vale a pena vivert 
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