Tócala de nuevo, Bob

sábado, 20 de junho de 2015


Se estivesse ainda conosco, com certeza que uma das maiores atrações da Copa América 2015 jogada no Chile teria sido Bob Marley. Ele haveria descido até o fundo austral do nosso continente e haveria aturado o frio polar com um objetivo extramusical: torcer de perto pela seleção de seu pais, a Jamaica. E, mesmo setentão, até teria batido uma bolinha com os Reggae Boys. Pode parecer exagero mas não é. O futebol era parte da vida de Bob, parte do seu cotidiano; tanto ou mais presente do que a música. "Se quer me conhecer de verdade, você precisará jogar futebol contra mim e os Wailers (sua banda musical)", disse certa vez a um jornalista que tentava lhe entrevistar. Futebol era mais que a diversão; o futebol estava intrínseco no estilo de vida da lenda jamaicana.

Jamaica é uma pequena e paradisíaca ilha do Mar do Caribe de uns 11.000 km2 e ao redor de 2.800.000 habitantes, que tem na religião e na música os elementos culturais mais emblemáticos. O país é berço do rastafarianismo e do reggae, duas expressões de subjetividade identitária que são intimamente ligadas, nas quais o maior destaque é, precisamente, Bob Marley. Mas por ter sido um território colonizado pelos ingleses, também o futebol é uma expressão da cultura popular.   

"Deve ser por conta dos meus genes", brincava Bob, sempre que questionado o porquê de tamanho gosto pelo futebol. O pai, Norval Sinclair Marley, nasceu em uma família inglesa mas, por conta da relação afastada com o filho, na verdade jamais lhe transmitiu corpo a corpo o gosto pela redonda.  Em rigor, o vínculo do ídolo jamaicano com o futebol tinha ADN próprio, justificação ética e estética que o levava a pratica-lo com a mesma paixão com que fazia música e prezava religião.  

Certa vez, um jornalista francês o questionou: 'O que é o futebol?'. E aí, com aquela simplicidade com que ele definia assuntos profundos, sorrindo com o sorriso maroto de uma criança que vai confessar uma  molecagem ou um gosto atrevido ou, talvez, uma opinião ousada, descreveu como poucos a magia do esporte:"Liberdade. O futebol é liberdade".

O futebol de Bob Marley
Também era por isso que a bola rolava antes de concertos ou nas folgas entre longas jornadas de gravação. Bob e os músicos relaxavam e liberavam a pressão da grande responsabilidade que carregavam. O futebol era uma das válvulas de escape.

Ele nunca revelou, mas diziam da paixão dele pelo pequeno Boys Town FC, que, poco depois de sua morte, se sagrou campeaõ pela primeira vez e foi crescendo até guardar hoje em suas vitrines 3 títulos de campeão da Jamaica e 5 vices. Já fora das fronteiras jamaicanas o encanto era por um excepcional e histórico time brasileiro. O Santos de Pelé cativou Bob.

Se imitava os movimentos do Rei nas peladas? Isso nunca ninguém saberá. A habilidade de Bob com a bola nos pés dividia opiniões. Uns afirmavam que o cantor até poderia se tornar profissional, outros preferiam ser mais cautelosos ao descreverem a real técnica do ícone do reggae no gramado.

O futebol de Bob Marley

"Bob gostava de ser meia-atacante ou até mesmo centroavante. Uma vez jogamos juntos no Estádio Nacional da Jamaica para cumprir um sonho dele. Até levantaram uma estátua dele, em sua memória", contou Alan Skill Cole, um dos grandes jogadores jamaicanos da história.

Mas ele pouco se importava com isso tudo. Tendo, como sempre teve, uma alma de criança, do que Bob gostava mesmo era de jogar. Mas o mesmo esporte que tanto admirou o condenou. Em 1977, em uma pelada na Inglaterra, ele sofreu um pisão que acabou machucando o dedão de um dos pés. Uma subseqüente infecção obrigou os médicos a estudarem mais o caso, e o resultado o tiraria da grande paixão.

Bob Marley padecia um melanoma maligno, uma espécie de câncer de pele, descoberto após a unha do cantor cair por conta da infecção. Para evitar um mal maior, os médicos recomendaram a amputação do dedo. Porém, por conta da filosofia rastafari, para qual o corpo é um templo imodificável, Marley se recusou.

O futebol de Bob Marley
 O câncer se espalhou, alcançou o cérebro, os pulmões e o fígado. Bob Marley morreu em Miami, no dia 11 de maio de 1981, com somente 36 anos, sem usufruir de um último desejo: retornar ao país em vida, voltar para a terra onde tinha descoberto, já de menino, sua irrenunciável paixão futebolística.

A morte precoce e a obra resultaram em uma ode justificável a Bob Marley. O defensor da paz e da igualdade social se tornou um ícone mundial que leva vendido mais de 75 milhões de discos.


O desejo final de visitar sua casa acabou se cumprindo apenas dias depois do falecimento. Como forma de um último adeus, Bob foi enterrado com a guitarra, uma planta de marijuana e uma bola de futebol, os três símbolos de sua liberdadet




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Tantas ideias velhas sem um colibri

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Tsubasa Imamura, um colibri

Confesso hoje que na minha juventude sempre senti uma inconfessada aversão por tudo quanto fosse japonês. Não gostava das pessoas porque achava todas igualzinhas; não gostava de sua língua nem de seu sotaque, que me pareciam elementares, limitados e machucavam meus ouvidos; comer carne crua ainda acho coisa de bicho selvagem; todos os comportamentos dos japoneses me resultavam infantis e, por tanto, mal educados, grossos e às vezes até cruéis. E por aí ia minha pobre alminha, ignorante de quanta coisa boa eu me perdia só porque tudo o que vinha de lá, daquele ignoto e longínquo Oriente, era de uma cor diferente a meu padrão de cores mal apreendido. Meros devaneios tolos.

E foi assim até aquele dia, no cinema, quando me deparei com a beleza de Eiji Okada e sua arte em Hiroshima mon amour; mais tarde apareci alucinando num sonho multicor da mão de Akira Kurosawa; quase ao mesmo tempo descobri o paradoxo espiritual das artes marciais e, graças a John Lennon, consegui admirar esse mistério lindo que ainda é Yoko Ono. A partir daí não foi difícil aceitar o que era de lei: japonês é um outro eu. E até pode batucar, sambar e jogar futebol sem fazer feio.

Se eu não tivesse feito esse roteiro, é bem provável que hoje não contasse com a mínima sensibilidade para apreciar o que faz Tsubasa Imamura, jovem cantora japonesa, nascida em Kanazawa no ano 1984, dona de uma voz suave e sentida e de uma expressão vocal minimalista que emociona. Dizem que ela tenta se espelhar em Carole King, Joni Mitchell, Ella Fitzgerald ou Astrud Gilberto. Sei não. Pra mim o que ela faz é simplesmente japonês. E é muito bonito.

Seu repertório é bastante eclético -coisa comum em estos jovens novos que buscam experimentar sem preconceitos-  e inclui músicas de autores brasileiros que já apresentou em atuações que fez no Brasil. Entre elas está Chão de Giz, numa versão surpreendente porque é exatamente o oposto da belíssima versão de seu autor, Zé Ramalho, e ainda no oposto igualmente bela.

Nessa voz de colibri -acompanhada por uma banda excepcional- achei o remédio definitivo para todo e qualquer preconceito velho que eu -mesmo sem saber- pudesse ainda guardar respeito aos japoneses. Aperte o play e confira por você mesm@. Seu batom será bem gastot    

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O rumo de nossos passos

sábado, 13 de junho de 2015


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Tú eres el Buda

quinta-feira, 11 de junho de 2015

La realización de la Verdad

A partir de ahora, en este momento, te pido que seas el Buda. Te pido que permanezcas quieto, absolutamente firme en tu intención de despertar a la Verdad de tu Ser. Esto es lo que el Buda hizo. Él no dijo: "Lo intentaré". Él no dijo: "Espero encontrar la Verdad". Él no dijo: "Haré lo que pueda". No dijo: "si no en esta vida, quizás en la próxima vida".

Llegó a un punto donde él no buscaba a nadie que le dijera la Verdad o le mostrara la Verdad. Llegó a un punto en que asumió todo por sí mismo. Se sentó solo bajo el Árbol Bodhi y prometió no abandonar hasta que la Verdad fuera realizada.

El poder de esta intención tan simple, pero inquebrantable y la actitud absoluta de ser liberado en esta vida lo impulsó a despertar al simple hecho de que él y todos los seres ya están liberados —que todos los seres son la libertad misma. Pura conciencia despierta.

El Buda no era diferente de ti. No diferente. Es por eso que sirve como un buen modelo, porque él era lo que tú eres ahora. Así que no adores al Buda. No le pongas en un pedestal. Ni siquiera lo admires. Conviértete en él. Ten las mismas intenciones, toma la misma postura. ¡Sé el Buda ahora! Pon fin a toda dilación, a todas las excusas, a todas las reverencias ante las figuras santas del pasado o del presente. ¡Ponte de pie!

¡Tú eres el Buda! ¡Eres la libertad misma! ¡Deja de soñar tu sueño! ¡Deja de fingir que estás en cautiverio —deja de contarte esa mentira! ¡Deja de fingir que eres alguien, o algo! Tú eres nadie, tú eres nada! Tú no eres este cuerpo ni esta mente. Este cuerpo y esta mente existen en quién y lo que tú eres. Eres consciencia pura, ya libre, despierta, y liberada. Ponte de pie y sal de tu sueño. Estoy aquí para decirte que puedes hacer esto.

Sal del sueño de tus conceptos e ideas. Sal del sueño de lo que imaginas que la iluminación es. Sal del sueño de quien crees que eres. Sal del sueño de todo lo que siempre has conocido. Sal del sueño de ser una persona engañada. Deja de decirte a ti mismo esas mentiras y soñar esos sueños. Sal de todo eso. Puedes hacerlo. Nada te detiene. No hay requisitos ni prerrequisitos para despertar. No hay nada que deba ser hecho, nada que pensar, ningún sitio a donde ir.

Simplemente deja todos los sueños. Deja todas las acciones. Deja todas las excusas. Simplemente párate y quédate quieto. Permanece sin esfuerzo. La Gracia hará el resto.

En cada momento de aquí en adelante, ten la intención de experimentar directamente la Verdad, tu verdadero Ser liberado. No pienses acerca de la Verdad —directamente vuelve a tu experiencia aquí, ahora, de instante en instante.

Experimenta la Verdad. Experimenta tu Ser. Sumérgete en tu experiencia. ¡Tu experiencia! Tu experiencia de oír, de ver, de gustar, de respirar, de los latidos de tu corazón, de tus pies tocando el suelo, de los pájaros, del viento.

Experimenta la inmensidad de lo que eres. Experimenta la libertad de quien eres. Tú eres el Buda – experimenta eso. Tú eres el Buda.t

Adyashanti.

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Blancas colinas

sexta-feira, 5 de junho de 2015


Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue, 
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

(Poema 1 do chileno Pablo Neruda, 1904-1973)
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Os tempos do homem-cachorro

segunda-feira, 1 de junho de 2015


* Por Hernán Casciari
  (versão em português de Alú Rochya)

A resposta de bate-pronto é que eu o faço por minha filha, por minha esposa, porque tenho uma família catalã. Porém se alguém me pedir para falar sério, para explicar com sinceridade o que é que eu faço por cá, em Barcelona, nestas épocas horríveis e entediantes, eu responderia o seguinte: porque estou a quarenta minutos de trem do melhor futebol da história.

Quer dizer: se minha mulher e minha filha fossem morar no Rio, eu pediria o divorcio e ficaria por cá. Pelo menos até a final da Champions. Porque,  veja bem: jamais viu-se algo parecido num campo de futebol, em época nenhuma, e é bem provável que isso não volte a acontecer nunca mais.

Na verdade, estou escrevendo empolgado, o reconheço. Escrevo isto a mesma semana em que Messi, liderando o Barcelona sagrou-se campeão da Liga Espanhola, campeão da Copa do Rei e se prepara para disputar a taça da Liga dos Campeões de Europa, contra a Juventus em Berlim, o próximo sábado, marcando recordes trás recordes. Simplesmente arrasador.

Mas não sou apenas eu. A imprensa catalã não fala de outra coisa. Por um momento, a crise econômica, as eleições não são mais os assuntos principais dos noticiários. Internet explode. O grande assunto é Messi. E em meio a tudo isso uma teoria estranha acaba de passar pela minha cabeça, muito difícil de explicar. Justamente por isso, vou tentar escreve-la, para ver se consigo arredondar minha idéia. Vamos lá.


Tudo começou hoje de manhã. Estou assistindo, sem parar, gols de Messi no Youtube. O faço com culpa porque estou no meio da edição final do número seis da revista que eu dirijo. Não deveria fazer isso. Mas faço, não consigo parar.

E nessa compulsão, por acaso, dei um clic num compilado de fragmentos que nunca tinha visto antes. Primeiro achei que era um vídeo mais de tantos outros, porém logo percebi que era outra coisa. Não saõ gols de Messi, nem suas assistências, nem seus melhores lances. É um compilado estranho: o vídeo mostra centenares de imagens –de dois a três segundos cada uma- nas quais Messi recebe faltas muito fortes e mesmo assim ele vai, vai,vai.

Ele não se joga nem reclama. Não procura, ardilosamente, a cobrança de uma falta, nem sequer de um pênalti. Em cada fotograma, ele continua com os olhos grudados na bola enquanto retoma o equilíbrio. Faz esforços desumanos para que aquilo que lhe fazem não acabe em falta, para que o jogo não pare, para que seu derroteiro não seja interrompido, sequer para que o defensor contrário leve um amarelo.

São muitíssimos lances com pontapés ferozes, obstruções, pisões, trapaças, rasteiras, agarrões traiçoeiros, abraços do urso; nunca tinha visto isso todo junto. Ele vai com a bola e recebe uma patada na tíbia porém segue; lhe dão um pisão no calcanhar, tropeça e segue; puxam sua camisa, se sacode, se solta e segue, obsessivamente, detrás da bola.

Por favor, para você entender melhor do que eu falo, assista ao vídeo que eu assisti, esse aqui embaixo. Aperte o play, confira. Você se surpreenderá tanto como eu. E depois continue lendo para saber de minha estranha porém certeira teoria.


Você viu? É de não acreditar, né? Bom, enquanto eu assistia esse vídeo, de repente fiquei atônito pois alguma coisa me resultava familiar nessas imagens. Curioso, coloquei cada fragmento do vídeo em câmera lenta e percebi que os olhos de Messi estão sempre concentrados na bola, mas não no futebol e ainda menos em seu contexto.

Como costuma dizer aquila criatura da Globo, no futebol atual a regra é clara. Por isso muitas vezes cair no chão é um jeito certo de cavar um pênalti ou então fazer com que o zagueiro adversário leve um amarelo para facilitar futuros contra-ataques. Nesses fragmentos que estou assistindo, Messi parece não entender nada sobre o futebol atual nem sobre a oportunidade. Parece como se estivesse em transe, hipnotizado. Só deseja que a bola entre no gol do outro time. Não se importa com o esporte nem com o resultado nem com a regulamentação. É preciso olhar bem nos olhos dele para compreender o que estou falando: tem um olhar estrábico, como quem não consegue ler alguma letra pequena; foca sua vista na bola e não a tira nem que seja esfaqueado.
Até aí, tudo bem. Mas tinha uma coisa me incomodando. Onde é que eu tinha visto antes esse olhar? Em quem?... Achava conhecido, familiar esse gesto de introspeção desmedida. Botei o vídeo em pausa e dei um zoom nos olhos dele. E então lembrei: sim, sim, eram eles, eram os olhos de Totín quando perdia a cabeça por aquela esponja.

Na minha infância, eu tinha um cachorro de nome Totín. Nada o comovia, sabe? Também não era um desses cachorros inteligentes e guardiões. Entravam ladrões na casa e ele só ficava olhando como os caras se levavam, tranquilamente, o aparelho de tv. Soava a campainha e ele parecia não ouvi-la. Eu vomitava no chão e ele não vinha a lamber como fazem os outros cachorros.

No entanto, quando alguém em casa (minha mãe, minha irmã, eu mesmo) pegava uma esponja –dessas esponjinhas amarelas pra lavar a louça- Totín pirava. Ahh, amigo, ele queria essa esponja mais que qualquer outra coisa no mundo. Ele morria por pegar e levar esse objeto a sua casinha de madeira. Eu lhe mostrava a esponja em minha mão direita e ele focava ali seus olhos. E eu brincava com ele, passava a esponja de uma mão a outra, de um lado a outro e ele com a vista fixada na esponja. Nunca conseguia parar por um momento de olhar a amarelinha.

Não se importava a que velocidade eu movimentasse o objeto; o pescoço de Totín se deslocava no ar sempre na mesma linha. Seus olhos viravam japoneses, atentos, intelectuais. Como os olhos de Messi, que deixam de ser os olhos de um pré-adolescente abestalhado e, por uma fração de segundo, projetam a mirada escrutadora de Sherlock Holmes.
Hoje, assistindo esse vídeo descobri que Messi é um cachorro. Ou, então, um homem-cachorro. Essa é minha teoria. Lamento se vocês chegaram até aqui com expectativas maiores. Eu sei que é uma teoria meia falhuta, sem aval científico, porém é minha teoria. Messi é o primeiro cachorro que joga futebol.

Só assim faz sentido que ele não compreenda as regras nem dê bola pra elas. Os cachorros não fingem rasteiras quando veem vir um carro, não reclamam com o juiz quando um gato consegue fugir deles saltando o muro, não procuram que o carteiro leve dos cartões amarelos. No origem do futebol os humanos também eram desse jeito. Iam atrás da  bola e mais nada. Não existiam cartões com cores, nem posição de impedimento,  nem suspensão por acumulação de cartões amarelos, nem os gols de visitante valiam dois. Antes se jogava como Messi e como Totín. Depois o futebol virou uma coisa muito esquisita.

Agora mesmo, nesse tempo, todo mundo parece estar mais interessado na burocracia do esporte, nas suas leis. Depois de uma partida decisiva, se fala uma semana inteira de legislação. Pediu João, deliberadamente, tomar esse cartão amarelo para ficar de fora a próxima partida e depois garantir presença no clássico? Fingiu Pedro a falta dentro da área? Chicão, que está suspenso, poderá ser escalado o domingo se amparando na clausula 208 que da esse direito porque Thiaguinho está jogando com a seleção sub-20? Sumiram os gandulas quando o placar da partida estava 2-1 mas depois apareceram quando ficou 2-2? O clube vai recorrer ante o Tribunal  Desportivo o segundo cartão amarelo que levou Dudu? O juiz acrescentou corretamente os minutos que Amaral demorou reclamando a sanção que levou Inácio por protestar a demora do goleiro Danilo que ficou fazendo cera na reposição de bola?

Não senhor. Os cachorros não entendem nada de regras nem de legislação, não ouvem o rádio, não assistem televisão, não leem a imprensa esportiva, não entendem se um jogo é amistoso e intrascendente ou é uma final de copa. Seu negócio é outro. Seja o que for, os cachorros sempre querem levar a esponja para sua casinha, mesmo que estejam mortos de sono ou estejam sendo devorados por carrapatos.

E sim, admitamos, Messi é um cachorro. Bate recordes de outras épocas porque só até os anos ’60 do século passado os homens-cachorro jogaram futebol. Depois a FIFA convidou todos nós a falar de leis e de artigos, e de televisão, e de publicidade e direitos de imagens e assim fomos esquecendo que no futebol o único importante era a esponja.

Então, nesse monumental desatino mercantilista feito um lixão alimentado por homens corruptos, acontece que um belo dia aparece um menino doente. Como aquele dia quando um macaco doente ficou erguido e começou a história do homem. Dessa vez foi um garoto sudaca com capacidades diferentes. Inabilitado para decorar duas frases seguidas, visivelmente anti-social, incapaz de curtir a malandragem humana. Porém com um talento espantoso para manter em seu poder um objeto esférico e leva-lo até uma rede de malha, no final de um prado verde, passando por todo e qualquer obstáculo que achar no caminho.

Se lhe deixaram, não faria outra coisa. Só levar essa esfera branca até aqueles três paus o tempo todo, como Sísifo, uma e outra vez. Depois dos cinco gols que fez naquela inesquecível partida da Champions, contra o Bayern Leverkusen, Guardiola disse:

-O dia que ele quiser fará seis...

Messi é um homem-cachorro

Não foi um elogio, foi a expressão objetiva do sintoma. Sim, não tem como negar, Lionel Messi é um doente. É uma doença rara, que me emociona, porque eu amava Totín e agora Messi é o último homem-cachorro. E é para constatar essa doença, para poder ver cada final de semana como ela evolui, que eu sigo aqui em Barcelona mesmo preferindo morar em outra parte.

Cada vez que subo as escadas internas do Camp Nou e de repente me deparo com o campo de jogo e enxergo o brilho da grama iluminada,  nesse momento -que sempre me traz fofas recordações da infância- falo pra mim e me digo, sempre, a mesma coisa: tem que ser um cara de muita sorte, Jorge, para você gostar tanto assim de uma expressão artística humana e ter a felicidade de ser contemporâneo de sua melhor versão. E, ainda por cima, que o palco principal fique tão perto de sua casa.

Desfruto de esta dupla fortuna. No entanto já sinto saudades antecipadas de este presente cada vez que joga Messi. Sou torcedor fanático deste lugar do mundo e deste tempo histórico. Porque eu acho que no Juízo Final estaremos todos os humanos que fomos e que ainda seremos, e que se organizará um bate-papo para falar de futebol. E aí, cada um irá se apresentando, e alguém dirá: eu estudei em Amsterdam em 73; outro: eu era arquiteto em São Paulo em 62; e outro: eu já era um adolescente em Nápoles em 87; e meu pai dirá: eu viajei a Montevidéu em 67; e alguém mais atrás se lembrará: eu escutei o silêncio do Maracanã aquele ano de 1950.

E assim, todos e cada um contarão suas batalhas com muito orgulho e até altas horas. E quando já não tenha mais ninguém para falar, aí, eu levantarei, ficarei em pé e falarei baixinho: eu morava em  Barcelona nos tempos do homem-cachorro. E se fará um silêncio ensurdecedor. Verei todo mundo abaixar a cabeça. E então aparecerá Deus, vestido de Juízo Final, e me apontando com seu dedo indicador, dirá:

-Você, o gordinho, está salvo. Todos os demais, vão tomar banhot

Messi é um homem-cachorro

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