Eu sou o que sou

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Neon Cunha
-Entrás a la jaula o te morís...
“Entonces me suicido”, contestó el pájaro.
-Roberto Margarido-

Dignidade e coragem não têm sexo. Isso é o que nos está ensinando por essas horas Neon Cunha, uma designer de 44 anos que mora em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo. Ela é ela mas nasceu como “ele” e  foi registrada com sexo masculino e batizada como Neumir. Por isso entrou com uma ação na Justiça solicitando uma retificação no Registro Civil para alterar o nome e o sexo sem precisar ser diagnosticada como doente psiquiátrica nem tem de fazer obrigatoriamente cirurgias mutiladoras.

Para um corpo sexado de um jeito se transformar em outro, nem que seja só pela mudança de nome, inventou-se uma doença psiquiátrica denominada "disforia de gênero", segundo a qual haveria uma incompatibilidade entre o gênero designado ao nascer e o gênero vivenciado pela pessoa. Havendo uma doença classificada pela medicina, a pessoa teria o direito de mudar o nome, se antes arrumar o corpo dentro da lógica binária de machos e fêmeas. É assim que antes de ter o nome mudado, Neon teria que plastificar o corpo no epicentro da masculinidade - o pênis precisaria ser arrancado para apagar os vestígios da sexagem original.

Talvez você já tenha reparado que o mundo começou a ficar um tanto estranho nas últimas décadas com a revelação de inúmeras diferenças no tipo humano. Longe de ser um problema, o fato é uma benção que vem a fazer mais marcante a grande diversidade humana e a convocar-nos para celebrá-la, pois toda diversidade nos enriquece e toda unanimidade é burra porque nos empobrece.

Pessoas com configurações cerebrais e corporais diferentes, com características de autismo, síndrome de down, dislexia, cegueira, etc revelam a existência de habilidades diferentes que, em eventos como as Paraolimpíadas, por exemplo, mostram que podem ser tão eficientes ou mais que muitas das pessoas chamadas “normais”.

Essas pessoas diferentes foram estigmatizadas, rejeitadas e até assassinadas ao longo de quase toda a história humana durante a qual os diferentes eram obsessivamente escondidos.  Nos últimos tempos, a exposição que ganharam essas diferenças foram obrigando a serem aceitas. Mas ainda prima o peso da discriminação pois, em sua maioria, essas pessoas são aceitas a partir de serem classificadas como doentes. É o que se pretende com pessoas com comportamentos sexuais ou de gênero diferentes do padrão unanime e burro de macho ⁄ fêmea.    

Como a pressão do ativismo social é muito grande e a consciência da verdade cresce nas mentes das pessoas, homossexualidade, bissexualidade, transgênero e outras diversidades do tipo vão sendo objeto de uma aceitação administrada. Trata-se, simplesmente, de mecanismos de controle da sociedade por parte daqueles poucos que usufruem as riquezas e benefícios que são direito de todos.

E aí vem esse negócio de condicionar ao transgênero. Tudo bem, aceitamos que você pirou, que é um doente mental, aceitamos que troque seu nome porém queremos que o preço seja bem alto, queremos que o processo seja doloroso, sofredor, que você, incluso, se auto-mutile para assim os demais aprenderem que não sera fácil ser diferentes e tentar fugir das caixinhas onde tudo está bem controlado. Não toleramos rebeldias. Hoje é um viado que quer mudar de sexo e amanhã um revolucionário que quer mudar o sistema.

E Neon é uma mulher livre, não aceita esses condicionamentos, e se recusa à medicalização prévia para que a reconheçam como mulher. Ela quer ser uma mulher com nome de mulher, seios implantados, porém com pênis. Não quer saber disso de mutilar-se para ser reconhecida como um corpo no feminino: "Não vou passar por controle médico, me recuso a passar por um processo de patologização... Eu não tenho disforia", desabafou.

Neon desdenha da autoridade da psiquiatria, e se apresenta como uma voz legítima para descrever o que se passa no íntimo e no corpo. Por isso, diz não ter medo da morte, "tenho medo de morrer sem dignidade". Nomear-se de um jeito compatível ao corpo que ela sente que habita é tratá-la com dignidade.

Na ação judicial, ela também solicitou o direito à morte assistida, na eventualidade do seu pedido não ser atendido. Neon não tem as dúvidas dos juristas que acreditam haver conflito entre princípios, se entre o direito à vida ou o direito à dignidade: qual seria o mais importante? Para ela, "não há nada mais primário do que a garantia de dignidade, nem mesmo a vida". Neon quer ser ela; caso contrário, prefere ser ninguém.

Neon está a nos ensinar a todos, independente do sexo e do figurino, que já está mais que na hora de assumir nossa responsabilidade individual para sair à vida a vive-la em plenitude, derrubando tudo o que tente nos impedir sermos nós mesmos e, assim, fazer na vida tudo aquilo que desejamos para a realização de nossa alma. Com a dignidade e a coragem que Deus nos deu.
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