Feminicídio gourmet

quarta-feira, 26 de outubro de 2016


"O ciúme quando é furioso produz mais crimes 
do que o interesse e a ambição."
-Voltaire- 
*Por Alú Rochya

O sentimento dele poderia ser chamado de amor a primeira vista. Uma paixão cega havia arrasado sua imutável paz oriental o dia em que ela chegou até sua poltrona abrindo aquele sorriso simples e amável, e no entanto sedutor, lhe oferecendo uma taça de champanha. A pouco mais de 8 mil pés de altura, a metade de caminho entre Tóquio e Paris, o avião da Air France parecia detido no céu. Aproveitando essa calmaria, as comissárias de bordo brindavam com um serviço de coquetel aos passageiros de primeira classe.

Tal vez por esse ar de velado desdém próprio de certas mulheres francesas ou quiçá pelo seu zelo profissional, naquela hora ela não reparou no olhar sugestivo dele e o tratou como um viajeiro mais. Se para todo o mundo japonês é tudo igual, não era assim com ela, familiarizada com rostos, costumes e língua orientais depois de vários anos de voar à terra do sol nascente e ficar na ilha grande inúmeras vezes. Foi por isso que, já na saída do aeroporto, ela reconheceu logo o homem tão gentil que estava convidando-a com uma carona até o centro de Paris como um dos passageiros do seu recente voo.


Aeromoças disparam fantasias nos homens e são sempre cortejadas, quando não assediadas. Estava costumada a esses lances e a recusar, delicadamente, esse tipo de convites. Porém, nesse instante ela não soube dizer não. E essa viagem juntos, até a cidade que ele ia visitar pela primeira vez, foi o começo de um namoro avassalador.


Ele tinha esposa e dois filhos no Japão. E era um executivo bem-sucedido de uma corporação japonesa com planos para abrir uma filial na França. O projeto ia fazer com que ele viajasse a Paris a cada 15 dias, devendo ficar por lá uma semana cada vez. Nada melhor para curtir esse inesperado namoro com a bela francesinha que arrebatou seu coração. Ela estava fazendo 28 anos, morava sozinha, era uma mulher liberal, de boa renda, quase sempre com amantes mas sem homem fixo. Porém, esse quarentão japonês de traços finos e olhar inquietante tinha conseguido prender ela a um namoro estável.



Oficialmente, ele se hospedava num hotel. No entanto, separando com rigor oriental o trabalho do prazer, ele alugou um luxuoso apartamento num bairro nobre da cidade, para fazer dele o ninho de amor onde os dois eram verdadeiramente felizes, passando ali suas melhores horas de deleite e encanto. Ela adorava compartir os pratos exóticos que ele preparava na hora do jantar com mestria de grande cozinheiro e ele gozava fazendo as delícias dela. Tudo começava à noite, na mesa e se estendia até o amanhecer, na cama.


O apaixonado romance foi um fogo que se manteve vivo e inalterável durante quase seis meses. Mas quando a canção se fez mais clara e mais sentida, quando a poesia fazia folia em suas vidas, ela chegou uma tarde e disse que tudo tinha acabado.

Ele ficou estremecido. Não havia sequer um indício para imaginar-se que algum dia aquilo poderia ter um fim. Nesse tempo de namoro jamais houve uma zanga sequer. Perguntou se havia outro homem. Ela respondeu que não. E não o havia. Ele ainda quis saber qual era, então, o problema. Ela disse que não havia problema. Que simplesmente achava que a experiência estava esgotada. Que era só isso. Falou também que era uma mulher livre, que não gostava ficar muito tempo amarrada a ninguém. Lhe pediu compreensão, deu um abraço carinhoso e um último beijo nele e foi embora.

Duas semanas depois os pais da menina se apresentaram à polícia para denunciar seu desaparecimento. Nesse tempo ela não se apresentou ao trabalho nem deu sinais de vida. Com a colaboração dos pais, a polícia conseguiu entrar no seu apartamento de solteira mas não achou qualquer vestígio para orientar a busca. Enquanto os dias se passavam o mistério crescia. Ninguém aportava um sinal o um rastro significativo. A discrição era uma marca dela e isso fazia que pouco e nada se conhecesse de sua vida privada, o que dificultava a pesquisa.



Entre tanto, naquele outro apartamento, ainda impregnado dos cheiros dela, ainda com os ecos de suas limpas risadas e seus gozosos gemidos, ele amargurava, sozinho, o imprevisto desfecho. Que acreditava ter sido por causa de um outro homem. E continha a raiva profunda que lhe produzia o fato incompreensível de ter sido abandonado desse jeito, da noite pro dia, de modo inapelável.


A cada hora a ferida se fazia mais lacerante, a ausência feroz dela mais insuportável, o desespero mais incontrolável. Aquela manhã sentiu que tinha chegado ao seu limite. Que não conseguiria segurar mais o hediondo segredo. E não conseguiu. Pela tarde se apresentou à polícia e, arrebentando em prantos, contou tudo.

Ele mesmo tinha matado a menina. Depois atassalhou o corpo dela e colocou os pedaços no freezer. Explicitou que cada noite, tomava uma dessas porções e preparava um prato diferente, como aqueles que ela tanto apreciava. E que, sentado à mesa, na hora do jantar, banhado em lágrimas, noite a noite comia uma parte dela. Disse que sentia que assim a levaria sempre com ele e ela não poderia ser de mais ninguém. Com o olhar perdido no chão, procurando num canto de sua própria alma um álibi moral para tamanha atrocidade, respondeu uma pergunta que ninguém lhe tinha feito: a matei porque era minha
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* Texto baseado numa história real acontecida em Paris, França, nos finais da década de 1990.  
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