A canção do desapego

quarta-feira, 9 de novembro de 2016


*Por Abílio Neto

Domingo passado, assisti comovido ao velório e sepultamento da mãe de um grande amigo. Naqueles momentos eu vi tantas lágrimas derramadas e tanto sentimento brotando à flor da pele que, por dentro, eu também senti. Chora-se pela perda quando se deveria chorar pela saudade, mas humanamente se torna impossível fazermos a demarcação de quando termina uma e começa outra. Choramos quando sentimos que perdemos, esta é a verdade!

Pensando bem, acho que chorar por uma pessoa cuja vida foi uma eterna alegria, fica meio contraditório. A palavra eterna foi usada no mesmo sentido que o poeta Vinícius de Moraes a empregou: eterna enquanto durou. Vejo também a questão do esforço que deve ser feito, sobretudo por parentes, visando não derramar tantas lágrimas, a fim de que a pessoa que desencarnou não fique presa a laços terrenos e siga livre a sua caminhada em direção de outra casa do Pai. Eu não sou favorável ao choro, mas acho-o inevitável. Por mais que nos preparemos espiritualmente para o desenlace, este nos surpreende e supera naquilo que ainda temos de pontos fracos.

Antônio Candeia Filho, mais conhecido simplesmente como Candeia, o grande sambista da Portela que faleceu em 1978, aos 43 anos, era um compositor genial. Por volta do final do ano de 1975, o jornalista e escritor Juarez Barroso, andava meio perdido na vida, chegou perto dele (que já vivia paralítico e usando cadeira de rodas) e lhe disse que tinha um tema para ele compor um samba: “preciso me encontrar”. A inspiração do Criador para esta canção foi uma coisa tão sublime que, ouvindo-se sua letra, você tem a impressão de que ela foi feita muito mais para compreender a vida pós-morte do que para atender alguém que quer encontrar seu rumo e seu prumo neste vasto mundo. A música se tornou um presente de Candeia para que Cartola a incluísse no seu segundo LP, gravado em 1976, quando o compositor da Mangueira tinha 68 anos.

Em 1977, quando ouvi este samba pela primeira vez, fiquei completamente pasmo com tanta sabedoria dentro de uma música popular, feita por um homem simples, do povo, chamado Candeia, que até hoje admiro. Pus até um apelido nela, de uns anos para cá, canção do desapego, uma vez que serve de autoajuda para entendermos melhor o significado da morte, do devir da vida.

Ninguém previa que esta música realmente se tornasse emblemática nessa questão da passagem de uma vida para outra: o jornalista, escritor e excelente crítico musical do Jornal do Brasil Juarez Barroso, que fez o pedido do samba a Candeia, foi o produtor do segundo disco de Cartola, mas não teve tempo de curtir seu grande trabalho porque faleceu em 18/08/1976, aos 41 anos, em decorrência de um aneurisma na aorta, um mês e poucos dias antes do lançamento da joia que produziu. Assim, a canção de 1976 se transformou num enigma espiritual. Teria tido ele alguma premonição? Além disso, o autor da música também se foi dois anos depois. Ela embalou a despedida dos dois.

Uma original interpretação de Preciso me encontrar você pode assistir e ouvir no vídeo embaixo. Com nuances de tango argentino, a música que emana do bandolim de 10 cordas de Hamilton de Holanda e do violão de 7 cordas de Yamandú Costa e as vozes combinadas do singular Zeca Pagodinho e de Marisa Monte, fazem do samba de Candeia um verdadeiro hino ao desapego, um tributo à vida em sua essência de fluir permanente e transformador. Não perca, aperte o play.



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