Minha alma não tem barba, viu?

domingo, 18 de maio de 2014

Conchita, alma sem barba

*Por Alú Rochya

É quase inacreditável que uma pessoa sozinha faça tamanho barulho. Mas acredite. Europa ainda está sacudida pelo impacto arrasador provocado pela austríaca Conchita Wurst, 25 anos, que de estiloso vestido cauda longa e profusa barba aparada, venceu, em Copenhague, a 59ª edição do tradicional concurso de canção Eurovision, finalizado o domingo 11 de maio, conquistando o público de 37 países votantes não só pela extravagância, mas também por suas inquestionáveis habilidades musicais.

Nos 5 dias posteriores os vídeos exibidos no youtube -onde você pode assistir a sua exótica figura e a sua maravilhosa voz-  simplesmente bombaram e superaram a marca de 35 milhões de visualizações!!!

Sua performance vocal impressionou na interpretação de Rise Like a Phoenix (O canto do fénix). Ao vencer o concurso, a cantora chorou emocionad@ no palco. "Nós somos um e nada pode nos deter!", disse ao público, antes de interpretar a canção vitoriosa pela segunda vez na noite, em meio a uma plateia vibrante.  

E assim foi que Conchita colocou em evidência a profunda divisão que existe na velha Europa entre liberais e conservadores. E até chegou a ser uma questão de Estado para alguns países. Pode?... Em quanto em alguns deles a vitória da “cantora barbuda” foi celebrado como um aporte criativo e ousado às políticas de respeito e defesa das diversidades,  na Rússia, Bielo-rússia e Ucrania, dentre outros, foi comentada ao mais alto nível com frases homofóbicas. O vice-primeiro-ministro russo, Dmitri Rogozine, enviando um recado aos ucranianos, escreveu na sua conta na rede social Twitter que o resultado no festival “deu uma ideia aos partidários da integração europeia do que os espera se se juntarem à Europa. A saber: uma mulher de barba”.

A vitória da concorrente austríaca foi também comentada pelo político nacionalista Vladimir Jirinovski, que se insurgiu contra a Europa e a Áustria: “É o fim da Europa. Ali não há homens e mulheres, há ‘aquilo’. Há 50 anos libertamos a Áustria. Foi um erro” (!!!).

Conchita e Tom 
No entanto, na carona das redes sociais, Conchita já se converteu no mais novo ícone gay do mundo. Mas a maior parte do mérito corresponde a seu criador, Thomas (Tom) Neuwirth um garoto que aos 22 anos tomaria uma decisão que mudaria por completo sua vida e lhe converteria numa personagem famosa em seu país. 

Conchita, uma alma sem barba
Depois de sofrer a intolerância e a discriminação da sociedade austríaca, que o (des)qualificou como um ser indesejável a causa de sua homossexualidade, Tom foi a fundo e dobrou a aposta. Dotado de um enorme talento musical, decidiu criar uma figura artística que teria a colossal tarefa de provocar e questionar os conservadores valores austríacos, reivindicando com suas atuações públicas o direito de ser diferente num mundo ainda povoado de absurdos preconceitos. E a seu alter ego o batizou como Conchita Wurst, uma mulher de barba e rostro angelical.


A partir daquele momento, Conchita    –com peruca, barba, cílios e seios postiços- virou uma personagem popular em Viena. Mas o que nunca imaginou Tom é que seu personagem alcançaria o perfil de herói, uma mulher respeitada e admirada pela classe política austríaca. Se por uma parte sua vitória desafiou a nojenta homofobia que ainda impera na Rússia, por outra lhe permitiu a Austria renovar seu antigo e desgastado guarda-roupa político e moral. Agora com ares de modernidade, o governo austríaco reivindicou a Conchita, reabriu o debate sobre os direitos dos homossexuais e prometeu legislar sobre temas tabúes como adopção e matrimonio gay. Wow!!!

Já com o premio nas mãos ela disse: “Não foi uma vitória apenas minha. Foi a vitória de todos aqueles que acreditam num futuro de paz, sin discriminação e baseado na tolerância e no respeito".

Acho que o trunfo de Tom/Conchita foi a criatividade e a ousadia de juntar num mesmo corpo um homem e uma mulher para dizer ao mundo alguma coisa do tipo: escutem, não sou nem homem nem mulher, ao mesmo tempo que sou homem e sou mulher. Escuten minha voz, escuten o que eu canto, tanto faz se quem canta tem corpo masculino ou feminino. Eu canto e vivo com minha alma. Me escutem.

Conchita, uma alma sem barba

Em quanto corpo, em quanto carne, todos somos macho e fêmea. Todos somos gays, gays de perereca ou gays de passarinho. Todos somos gays e todos somos héteros. Todos somos yin e yang. Porém antes mais nada todos somos um espírito e uma alma. Curtam a breve circunstância de seus corpos como seja que desejem, mas não esqueçam de viver plenamente a eternidade de suas almas, independente das roupas - ou das barbas- com que cada um vá contracenar o seu papel no palco da vida. Em definitiva, tudo nesta vida é um ensaio.

Então, querid@s, vamos deixar de encher o saco com essas caixinhas feitas de preconceitos bobos com os quais classificamos e rotulamos as pessoas, para evitar botar nosso cérebro em funcionamento (em especial o hemisfério direito). Deixemos aos outros curtir suas mais variadas fantasias e sexualidades e nós façamos o mesmo, tá? Só uma coisa: se você gostar de meu corpo, se excite com meu corpo, pegue ele, lamba ele, coma ele, marque ele mas me olhe além de meu corpo. Eu não sou o meu corpo, eu sou eu  (espírito, alma) e meu corpo (mesmo que seja um corpão) é meu veículo provisório para andar por este mundão, entendeu? 

Então, por favor, transcendamos a aparência das coisas –barbas, batons, unhas pintadas, brincos, seios, pênis...- e nos conectemos direito com as almas eternas e seus sonhos. Lhes posso garantir que conectadas, suas almas e a minha, podemos vibrar alto e lindo nas ondas de uma canção de apenas três minutos e pouco como Rise Like a Phoenix, essa mesma que Conchita canta tão maravilhosamente no vídeo a seguir. Assista, e good show!!!


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