O amor que a homofobia não vê

sexta-feira, 18 de maio de 2018


Um adolescente dos Estados Unidos finalmente cria coragem para contar à sua mãe um segredo que escondeu a vida inteira. Ao falar para a mãe que ele é gay, o garoto esperava preconceito de todos, só não imaginava que sua própria mãe também tomaria uma atitude radical: renegá-lo como filho e expulsá-lo de casa.

Mas, por sorte, o garoto podia contar com seu avô. Que não apenas acolheu o neto com todo amor e carinho, como ainda escreveu uma carta para a mãe dele, sua própria filha, expressando sua opinião sobre a atitude dela. A carta se espalhou pela Internet. E ao lê-la não é difícil de entender porque.

A carta foi publicada pela empresa de FCKH8, uma empresa  que vende camisetas e acessórios que apresentam slogans com um tema de justiça social. O texto da missiva é o seguinte:

Cara Christine,

Você me desapontou como filha. Você está certa sobre termos uma “vergonha na família”, mas errou sobre qual.

Expulsar seu filho de sua casa simplesmente porque ele disse a você que era gay é a verdadeira “abominação”. Uma mãe abandonar o filho é que “é contra a natureza”.

A única coisa inteligente que ouvi você dizer sobre tudo isso é que “não criou seu filho para ser gay”. Claro que não criou. Ele nasceu assim e escolheu isso tanto quanto escolheu ser canhoto. Você, entretanto, fez a escolha de ser ofensiva, mente-fechada e retrógrada. Então, já que esse é um momento de abandonarmos filhos, acho que chegou a hora de dizer adeus a você. Sei que tenho um fabuloso (como os gays dizem) neto para criar e não tenho tempo para uma filha que é uma b. sem coração.

Se encontrar o seu coração, ligue pra gente.

Papai


Anos depois desse desgraçado -e belo- episódio outro jovem americano teve que encarar -como acontece diariamente com outros milhares de garotas e garotos- uma instância similar. Aos 20 anos, Leah Hintz resolveu assumir a transexualidade em todos os círculos da sua vida. A estudante de antropologia da Flórida só precisava de coragem para contar que agora se assume como uma mulher para duas das pessoas mais queridas: sua avó de 86 aos e seu pai.

A resposta da vovó foi a seguinte: "Você sempre foi tão gentil e sensível. Agora percebo feminilidade nessas memórias. Tenho muito orgulho por reconhecer quem você é e por viver seu verdadeiro eu. Você é uma linda mulher e não importa o que você se tornar, eu te amo".

A conversa com o pai foi assim: 
- Pai...preciso te falar uma coisa 
- Claro..o que?
- Eu sou trans
- E o que isso quer dizer?
- Quer dizer que sou uma mulher
- Ah, bem, eu já tinha percebido. E sua maquiagem está bonita
- Então você consegue me  ver como uma mulher?
- Claro, você é minha criança e eu te amo. Amar você significa te apoiar, mesmo que seja um aprendizado para mim
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Atualmente, ainda existe muita descriminação. Muitos homossexuais por todo o mundo são alvo de insultos, de olhares desaprovadores e, em casos extremos, de violência e até de assassinatos. E o que contam essas duas histórias é que essa discriminação começa no seio da própria família e que é no seio da família onde pode estar a solução. Porque até que não estejamos dispostos a amar incondicionalmente aos seres mais próximos para assim poder compreendê-los e aceitá-los, estes terão pela frente uma tarefa árdua e dolorosa para se insertar na sociedade sendo o que eles são.

Toda homofobia começa em casa e é em casa onde deverá ser suprimida para ela não existir em lugar nenhum. E a única ferramenta para isso é o amor.

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Aparências

segunda-feira, 14 de maio de 2018


Manter as aparências 
nos faz gastar uma energia imensa 
para provar aos outros aquilo que, 
no fundo, sabemos que não é real. 
Potência que pode ser investida 
no reconhecimento e validação de si 
e que trará o verdadeiro alívio para o coração, 
vivendo de acordo com seus valores 
e alinhado com sua essência mais profunda.
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Cante jondo dos ciganos (e dos sufis)

quinta-feira, 10 de maio de 2018


Tony Gatlif é um realizador de cinema francês de etnia cigana e argelina, que também trabalha como argumentista, ator e produtor cinematográfico. O seu tema principal é o povo cigano e dirigiu, entre outros,  Vengo, um filme francês de 2000 que conta a história apaixonada de um feudo de sangue entre ciganos espanhóis que se concentra em Caco, um homem orgulhoso que deve lutar pela honra e segurança de sua família.

A obra é uma ode à arte e à magia da dança e da música flamenca. Vengo é um drama contra o pano de fundo de duas famílias ciganas da Andaluzia presas em uma luta milenar pelo poder. O filme apresenta performances de vários artistas, entre eles o guitarrista flamenco Tomatito travando um duelo musical com Sheikh Ahmed Al Tuni, um dos grandes cantores sufis do Egito, numa passagem deliciosa que você achará nesse vídeo e que, de jeito nenhum, pode perder. Aperte o play...


O amor funciona assim

domingo, 6 de maio de 2018


O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. 
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. 
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.
                                                                                                    Carlos Drummond de Andrade


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A puttana de Veneza

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vénus, Cupido, Vulcano, Marte -escondido. (Jacopo Tintoretto)

Durante el Renacimiento, especialmente en las ciudades de Roma y Venecia, se desarrolló un fenómeno social y cultural llamado cortigiane oneste, las cortesanas honestas. Lejos de la sordidez habitual de las prostitutas que ejercían cerca del puente del Rialto, las llamadas cortesanas honestas de Venecia se distinguían por ser mujeres refinadas, educadas, cultas y sofisticadas. Estas cualidades les permitían gozar de libertad, autosuficiencia y acceso al mundo del arte y la cultura, algo inimaginable para el resto de mujeres de la época.

Los clientes de las cortesanas, entre los que se encontraban los hombres más influyentes y poderosos de la sociedad veneciana, sabían que, además de satisfacer sus necesidades carnales, iban a encontrar una compañera con la que poder conversar de arte, filosofía o poesía. Incluso fueron inmortalizadas por grandes pintores como Tiziano, Tintoretto o Rafael. Pero si una destacó de entre todas estas cortigiane oneste fue Verónica Franco.

Verónica nació en Venecia en 1546 y  llegó a ser la cortesana más cotizada de la ciudad de los canales. Su fama atravesó las fronteras y los siglos, y llega hasta nuestros días. Durante el esplendor del Cinquecento, Venecia era el puente entre Oriente y Occidente. La opulencia del imperio que construyeron mercaderes y navegantes convivía con la belleza del arte renacentista, la lujuria, el carnaval y la peste bubónica.

Verónica  Fue la hija mayor de Francesco María Franco y Paola Francassa, una cortesana honesta que había dejado la profesión para formar una familia. A pesar de que su madre se preocupó de darle una buena educación con los mejores tutores que la familia podía permitirse y que, de esta forma, pudiese tener cierta independencia, por imposición paterna, Verónica estaba destinada a convertirse en la esposa diligente de un hombre de buena posición económica. Y aunque para ella no había otro amor que el de Marco Venier, tan vedado como el acceso al conocimiento que en su familia se reservaba a los varones, al cumplir los 16 años la casaron con el médico Paolo Panizza. El matrimonio, desde el primer momento, fue para Verónica un auténtico infierno. En connivencia con su madre, decidieron dar un paso al frente y librarse de aquel borracho pendenciero: reclamó la dote y se separó.

La muerte de Francesco dejó a madre e hija solas y sin recursos. Así que, Paola decidió adiestrar a Verónica en las artes amatorias y juntas regresaron a ejercer la antigua profesión de la madre. Ambas aparecían con el mismo precio, dos escudos por noche, en la Tariffa delle puttane, un registro donde se detallaban los nombres y las tarifas de las 215 cortesanas de mayor prestigio -de las más de 3000 mujeres que ejercían las prostitución en Venecia en 1572, sólo a 215 se las consideraba dentro dentro del grupo de las cortesanas honestas-.

Unos años más tarde, Verónica superó el prestigio y el caché de su madre -un beso suyo pasó a costar 15 escudos y 50 una noche-, convirtiéndose en la más admirada y solicitada de la ciudad. Aquella situación, permitió a Verónica elegir sus clientes y, sobre todo, ser dueña de su propio destino.


Su belleza juvenil y su refinada sensibilidad, le confirieron un encanto único entre las mujeres de la época. Inteligente, filosa, sensual, fue retratada por Tintoretto, protegida por el poderoso Doménico Venier y venerada por el mismísimo Delfín de Francia. Comenzó a rodearse de lo más selecto de la sociedad veneciana, entablando amistad con grandes artistas y ganándose la protección de los más poderosos. Incluso la propia ciudad de Venecia solicitó de sus servicios con motivo de la visita de Enrique de Valois, rey de Polonia y futuro rey de Francia, participación que habría resultado clave en la alianza firmada con Francia. 

Aún así, como la envidia es compañera fiel de los miserables, la cortesana honesta tuvo que hacer frente a al adejtivo (des)qualificador  Verónica, vera unica puttana (Verónica, la única y verdadera puta), unos versos ofensivos y despiadados que circulaban por Venecia obra de Maffeo Venieri, celoso de los amoríos de Verónica con su hermano Marco -se dice que su verdadero amor. 

Para acabar de raíz con todo aquello, Verónica retó públicamente a Maffeo a un duelo poético… Y ganó, y se consagró como una gran poeta . Llegó a convertir el salón de su casa en una especie de centro cultural donde se daban cita músicos, pintores o literatos para disfrutar de un concierto, conversar de filosofía o escuchar poesía. Incluso llegó a publicar algunas obras como Terze Rime o Lettere familiari a diversi.

Lógicamente, por el camino dejó algún corazón roto y habría de pagarlo. En 1580 Rodolfo Vannitelli, tutor de uno de sus cuatro hijos, despechado, la denunció ante la Santa Inquisición por no seguir los preceptos de la Iglesia y por brujería. Aún siendo todo mentira, tuvo que tirar de sus amistades y contactos para salir absuelta. A pesar de un veredicto favorable, desde aquel día Verónica quedó marcada y todos comenzaron a darle la espalda. A pesar de todo, ella siempre fue consciente de las limitaciones de una mujer en una sociedad de hombres…

Retirada en su mansión, con la única compañía de sus hijos, intentó que la ciudad construyese una especie de asilo donde acoger a las prostitutas enfermas o ancianas, y dar una segunda oportunidad a las que desearan retirarse de la profesión. En 1591, a la edad de 45 años, moría Verónica, una mujer que demostró que la cultura y la educación les darían a las mujeres la libertad para pensar y decidir por sí mismas.

Fuentes: Reinas en la sombra de María Pilar Queralt y La Puttana de Venecia de Ana Maria Cabrera
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Uma sombra em busca de almas

quarta-feira, 14 de março de 2018

Acrilíco de Elio Villate
Fui
un trovador errante
sombra por caminos sin almas.

Mis riquezas fueron aquellos sitios
donde aprendían mis canciones
quienes me las mostraban.
Vagabundos alrededor de sus hogueras,
iluminaciones de cirqueros y perros
donde me convertía en una chispa transitoria
disuelta en las remotas antífonas
que saben las cigarras.

Mi patria era la intemperie,
los acosados campos de clorofila elemental
y fauna en eclosión
Pero también era ceniza,
miércoles de lloviznas
masticando la hogaza sucia y nutritiva
que comparte el proscripto ordinario,
risueño y colosal,
entre las tibias, ocasionales piernas
de un cisne amaestrado.

Fui
un trovador errante,
y ahora, tras el paso del tiempo,
soy quien enciende las hogueras,
quien convoca luciérnagas
y sabe el nombre de la chispa que salta
de la crepitación hacia la noche,
cometa de un universo diminuto
donde mi mano es la de Dios,
quiero decir, la de un colosal viejo vagabundo
con la mirada puesta en los senderos,
con la memoria abierta
a la única riqueza que le espera.

Susurraré mi historia
a un trovador errante,
sombra en busca de almas,
para que la reparta
junto a los fuegos ocasionales, tibios,
que depara el camino
a todos quienes sueñan,
con un cisne salvaje.
(Silvio Rodríguez)
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Celebração dos homens-fêmeas

quinta-feira, 8 de março de 2018

Domitila Chungara - Janis Joplin - Frida Kahlo - Elza Soares - Serena Williams

O texto embaixo foi escrito por Fernanda Torres e publicado há um tempo na Folha de Sâo Paulo. Seu enfoque -original, engraçado, polêmico- não resistiu o teste da diversidade. Uma chuva de ataques caiu encima dela. E ela reagiu de maneira errada: pedindo desculpas. Acho que o medo de ver sua imagem arranhada fez com que ela desse uma ré. A intolerância, o sectarismo, o ódio e até o desejo de vingança que permeiam a muitos dos movimentos e manifestações autonomeados de feministas a miúde fazem muito dano a sua própria causa, botando paus na roda da evolução da consciência humana. Precisa-se ser dito: definitivamente, não são as mulheres melhor coisa que os homens. Uns e outros ainda não conseguiram superar sua condição de primatas. Uns e outros deixam ainda muito a desejar. Uns e outros são responsáveis e cúmplices do sistema injusto, doentio e anacrônico que controla nossa sociedade. A ignorância e a banalidade in extremis de dois bobinhos como Bruna Marquezine e Neymar podem server de símbolo suficiente. Então, desculpas de que, Fernanda? De pensar diferente, de ser corajosa, de ser honesta e sincera, de ser autocrítica, de não se exibir, de ser uma boa atriz -e não uma mera celebridadezinha global-, de ser uma boa escritora, produtora, roteirista, esposa, mãe, mulher de colhões, anormal e ousada que em cada ato de sua vida bota em jogo o corpo e alma?... Bom, me desculpa, dona Fernanda, mas aqui vamos ignorar suas desculpas. E vamos republicar, inteirinho, aquele texto saboroso, leve, despojado como a melhor forma que achei para homenagear às mulheres, nesse 8 de março, dia tão particular onde os homens-de-sexo-feminino podem relembrar ao mundo que há uma metade maravilhosa da humanidade que é imprescindível para a evolução harmoniosa e amorosa dos homens de todos os sexos. Obrigada, Fernanda. Fiu, fiu...

         
Mulher

*Por Fernanda Torres

No presente, a mulher ainda apanha, ganha menos do que o homem e fechou um contrato social impossível de ser cumprido, já que cabe a ela não só cuidar da prole, do lar, se manter jovem e desejada, como também trabalhar para contribuir para o sustento da casa. Sobra tempo nenhum para dormir e, muito menos, sonhar com alguma realização que vá além dos deveres do dia.

Nas camadas mais desassistidas, o fim do casamento indissolúvel produziu milhares de lares sem pai, onde a avó e a mãe servem de esteio para a estrutura familiar. Na falta de creches, de escolas, do Estado para ampará-las, a tarefa de criar rapazes que não repitam a violência e o abandono dos pais e meninas que deem um basta na escravidão das mães, é uma missão que beira o inatingível.

A maternidade interfere na vida da mulher de uma forma mais arraigada do que a paternidade na do homem. Temos um relógio biológico certeiro, que coincide com nosso período produtivo, interferindo nas decisões profissionais e pessoais. A fragilidade no emprego, a dependência dos cônjuges, a falta de liberdade de ir e vir passa pela incapacidade do feminino de se desapegar das crias. Um homem, seja ele pobre, rico, preto ou branco, baixo, alto, feio ou bonito, dorme quando está cansado, sai quando deseja e dá prioridade à própria agenda, sem nenhuma pressão que não a da vontade.

Algumas correntes defendem que essa diferença é cultural, mas eu acho que é biológica, carnal, imemorial.

Sou pela licença paternidade. É um passo e tanto para que o casal, unido, divida a responsabilidade dos primeiros meses exaustivos de um bebê. Sou favorável a que toda fábrica tenha uma creche e tenho gratidão pelas babás que me criaram e que criaram meus filhos, cumprindo a função da mãe social, que nos tempos da vovó menina era feito pelas tias, primas, avós e irmãs da casa.

Invejo o companheirismo dos homens, o prazer que eles sentem de estarem juntos e se divertirem com qualquer bobagem. Homem gosta muito de estar com homem. Não me incomoda o machismo, confesso, talvez seja uma nostalgia de infância que carrego. A geração que me criou era formada por machões gloriosos, de Millôr a Miéle, irresistíveis até nos seus preconceitos.

Um editor alemão recusou publicar meu livro, Fim, dizendo que era machista. Explicaram que a obra havia sido escrita por uma mulher e ele disse que não importava, que era machista do mesmo jeito e não iria pegar bem na Alemanha. Está certo o editor, eu sou latina, não consigo entrar numa sauna com todo mundo pelado e me manter isenta.

Os estupros da passagem de ano na mesma Alemanha advogam em favor do editor avesso ao machismo. A violência contra a mulher é menor em lugares onde a igualdade entre os sexos é melhor resolvida. Nos países muçulmanos que visitei, Marrocos, Egito, Malásia, sempre me incomodou o olhar guloso, reprimido e repressor dos homens.

O Brasil está entre um e outro.


Minha babá era um avião de mulher, uma mulata mineira chamada Irene que causava furor onde quer que passasse. Eu ia para a escola ouvindo os homens uivando, ganindo, gemendo, nas obras, nas ruas, enquanto ela seguia orgulhosa. Sempre associei esse fenômeno à magia da Irene. O assédio não a diminuía, pelo contrário, era um poder admirável que ela possuía e que nunca cheguei a experimentar.

Estou certa de que essa é a minha primeira encarnação como mulher.

Apesar do talento para ser mãe, sou menos feminina do que gostaria de ser. Já beirando a idade em que nos tornamos invisíveis ao peão da obra da esquina, rejeito as campanhas anti fiu fiu e considero o flerte um estado de graça a ser preservado. É claro que um chefe que mantém uma subalterna sob pressão constante merece retaliação, mas uma vida de indiferença, onde todo mundo é neutro, não falo igual, digo neutro, sem xoxota, sem peito, sem pau, bigode, ah… é uma desgraça.

Tenho admiração pelas mulheres livres, que não conhecem o medo e são plenas na sua feminilidade. Certa feita, um mulherão me explicou que terminou um casamento sem brigas e sem sofrimento porque o marido ficou homem demais. Na casa dela, pontuou a morena, só havia lugar para um homem, e esse homem era ela.

Nunca fui mulher o suficiente para chegar a ser homem.

A vitimização do discurso feminista me irrita mais do que o machismo. Fora as questões práticas e sociais, muitas vezes, a dependência, a aceitação e a sujeição da mulher partem dela mesma. Reclamar do homem é inútil. Só a mulher tem o poder de se livrar das próprias amarras, para se tornar mais mulher do que jamais pensou ser: um homem fêmea.


* Fernanda Torres é atriz, roteirista, escritora.


Afirmação de princípios

quinta-feira, 1 de março de 2018

-Entrás a la jaula o te morís...
-Entonces me suicido -contestó el pájaro.
-Roberto Margarido-

Mi libertad me ama y todo el ser le entrego.
Mi libertad destranca la cárcel de mis huesos.
Mi libertad se ofende si soy feliz con miedo.
Mi libertad desnuda me hace el amor perfecto.

Mi libertad me insiste con lo que no me atrevo.
Mi libertad me quiere con lo que llevo puesto.
Mi libertad me absuelve si alguna vez la pierdo
por cosas de la vida que a comprender no acierto.

Mi libertad no cuenta los años que yo tengo,
pastora inclaudicable de mis eternos sueños.
Mi libertad me deja y soy un pobre espectro,
mi libertad me llama y en trajes de alas vuelvo.

Mi libertad comprende que yo me sienta preso
de los errores míos sin arrepentimiento.
Mi libertad quisieran el astro sin asueto
y el átomo cautivo, ser libre ¡qué misterio!

Ser libre. Ya en su vientre mi madre me decía
"ser libre no se compra ni es dádiva o favor".
Yo vivo del hermoso secreto de esta orgía:
si polvo fui y al polvo iré, soy polvo de alegría
y en leche de alma preño mi libertad en flor.

De niño la adoré, deseándola crecí,
mi libertad, mujer de tiempo y luz,
la quiero hasta el dolor y hasta la soledad.

Mi libertad me sueña con mis amados muertos,
mi libertad adora a los que en vida quiero.
Mi libertad me dice, de cuando en vez, por dentro,
que somos tan felices como deseamos serlo.

Mi libertad conoce al que mató y al cuervo
que ahoga y atormenta la libertad del bueno.
Mi libertad se infarta de hipócritas y necios,
mi libertad trasnocha con santos y bohemios.

Mi libertad es tango de par en par abierto
y es blues y es cueca y choro, danzón y romancero.
Mi libertad es tango, juglar de pueblo en pueblo,
y es murga y sinfonía y es coro en blanco y negro

Mi libertad es tango que baila en diez mil puertos
y es rock, malambo y salmo y es ópera y flamenco.
Mi libertango es libre, poeta y callejero,
tan viejo como el mundo, tan simple como un credo.

(Libertango, poema de Horacio Ferrer) t 
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Federico

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018


"Dejadme, 
ya vendrá un viento fuerte 
que me lleve a mi sitio". 
- León Felipe - 

*Por José María Cáceres

a FMPR i.m

Era sin duda un tipo refinado. Con estampa de niño bien, patrón de estancia. Se notaba en cada uno de sus gestos haber sido educado en un clima decimonónico lleno de reglas puntillosas, ácidas ironías lanzadas con estudiada afectación en inglés y francés. Una educación que propicia la crianza de narcisos que se reflejan solo en el espejo de su especie. Insonorizado de la plebe, lejos del choripán. 

Fue forjado en una cultura muy alejada de la naturaleza y de los tenderos nuevos ricos. Un lugar donde los hombres deben pujar ganadores en el remate del toro campeón en La Rural mientras las mujeres se balancean en el melancólico columpio de una distinguida neurastenia. Pero la inteligencia pudo más que todo ese envoltorio.

Harto de ese refinamiento artificioso Federico, se propuso un plan de fuga.

Comenzó por renunciar a su destino de heredero. En la familia, la inédita decisión se tomó como un agravio a la nobleza de sus ancestros. Y tuvo su castigo. Le proveían lo mínimo para la supervivencia en la esperanza que, ante la ausencia de lo material,  recapacitara y volviera al redil y al testamento. También en las tertulias edulcoradas, entre mayordomos y candelabros de plata, se insinuaba -un tanto sibilinamente- que lo mejor era decir que estaba algo loco.

Aun así, el hombre dejó esos bienestares y comenzó una vida de artista transitando las calles apestadas de pueblo, pintores, actores, escritores, estetas. Toda gente del zanjón. Un horror. Deambulaba por Buenos Aires, como si abandonara cada mañana su celda de clausura, saliendo a la calle para anunciar la presencia del Firmamento Interno en cada uno de nosotros. El Otro Lado, afirmaba, es el Firmamento Interno. Una especie de arrabal cósmico donde es posible encontrarse con aquellos que lograron huir de la obscena maquinaria cotidiana que pica carne sin cesar. 

Una mañana me llamó por teléfono para comunicarme que  la obra que pensaba realizar ese año consistiría en  bajar de peso. Unos quince kilos. Me anunciaba también que vendría a mi casa y, como siempre lo hacíamos, hablaríamos de Dios. Y dado que su obra ya estaba en marcha pidió para el almuerzo un bife de cuadril desgrasado a la plancha, muy jugoso, acompañado de ensalada mixta. Nada de pan, como postre una manzana roja. Accedí a preparárselo con gusto. La compañía de esta especie de ángel de Buenos Aires, era para mí y para algunos otros, la presencia de un espíritu celeste.

La comida se deslizaba por los mansos senderos de la amistad  y nada hacía presagiar la conmoción posterior. Pero, como siempre sucede, la inocencia siempre sorprende cualquier intriga. Y como estaba acostumbrado a sus largos silencios donde se colgaba con algún pensamiento metafísico, seguí con mi rutina de trabajo.

Todo parecía en calma hasta que preguntó:

- ¿Che, nunca deseaste que te lleve el viento?

Sorprendido atiné a responder ¿cómo que me lleve el viento?

Y ahí hizo una larga pausa.

A esa hora, la luz que había sido intensa en la mañana, comenzaba a declinar iluminando con sutileza las cosas del taller, sobre todo pareció detenerse -como lo hacía Lacámera- en el plato con una manzana que estaba sobre la mesa. 

- Si, un viento que ante el desconcierto que es la vida te permitiese huir de tus maquinaciones cerebrales. Pero, ojo que no me refiero a cualquier viento…

Entonces fijó sus ojos en mi propio desconcierto diciendo:

– Sí, que te lleven uno de esos vientos extraviados que no soplan en ningún cuadrante conocido y que, suavemente, te dejen caer en al lugar exacto.

Mi sorpresa iba en aumento y respondí lleno de intriga: ¿Qué es eso del lugar exacto? 

Me miró advirtiendo mi ignorancia y replicó con firmeza.

- Al lugar que hayas elegido vos, para vos. Más aun, un viento que te lleve donde siempre quisieras estar. A tu lugar.

Mordió la manzana roja casi con devoción y como era habitual en él, ya estaba en otra cosa. Yo, en tanto, mudo, catatónico, había comprendido que no tenía la más lejana idea de cuál era, para mí, ese lugar.

Entendí que si quería huir de mis maquinaciones cerebrales, debía primero saber dónde quería llegar.

Y que era hora que me lo preguntase.

*José María Cáceres es escritor, artista plástico, maestro de arte e figther existencial.
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Um brinde às fêmeas

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018


Yo quise ser como los hombres  quisieron que yo fuese:
un intento de vida;
un juego al escondite con mi ser.
Pero yo estaba hecha de presentes,
y mis pies planos sobre la tierra promisora
no resistían caminar hacia atrás,
y seguían adelante, adelante,
burlando las cenizas para alcanzar el beso
de los senderos nuevos.

A cada paso adelantado en mi ruta hacia el frente
rasgaba mis espaldas el aleteo desesperado
de los troncos viejos.

Pero la rama estaba desprendida para siempre,
y a cada nuevo azote la mirada mía
se separaba más y más y más de los lejanos
horizontes aprendidos:
y mi rostro iba tomando la expresión que le venía de adentro,
la expresión definida que asomaba un sentimiento
de liberación íntima;
un sentimiento que surgía
del equilibrio sostenido entre mi vida
y la verdad del beso de los senderos nuevos.

Ya definido mi rumbo en el presente,
me sentí brote de todos los suelos de la tierra,
de los suelos sin historia,
de los suelos sin porvenir,
del suelo siempre suelo sin orillas
de todos los hombres y de todas las épocas.

Y fui toda en mí como fue en mí la vida…

Yo quise ser como los hombres quisieron que yo fuese:
un intento de vida;
un juego al escondite con mi ser.
Pero yo estaba hecha de presentes;
cuando ya los heraldos me anunciaban
en el regio desfile de los troncos viejos,
se me torció el deseo de seguir a los hombres.
Y el homenaje se quedó esperándome.
(Julia de Burgos Yo misma fui mi ruta)

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