Uma sombra em busca de almas

quarta-feira, 14 de março de 2018

Acrilíco de Elio Villate
Fui
un trovador errante
sombra por caminos sin almas.

Mis riquezas fueron aquellos sitios
donde aprendían mis canciones
quienes me las mostraban.
Vagabundos alrededor de sus hogueras,
iluminaciones de cirqueros y perros
donde me convertía en una chispa transitoria
disuelta en las remotas antífonas
que saben las cigarras.

Mi patria era la intemperie,
los acosados campos de clorofila elemental
y fauna en eclosión
Pero también era ceniza,
miércoles de lloviznas
masticando la hogaza sucia y nutritiva
que comparte el proscripto ordinario,
risueño y colosal,
entre las tibias, ocasionales piernas
de un cisne amaestrado.

Fui
un trovador errante,
y ahora, tras el paso del tiempo,
soy quien enciende las hogueras,
quien convoca luciérnagas
y sabe el nombre de la chispa que salta
de la crepitación hacia la noche,
cometa de un universo diminuto
donde mi mano es la de Dios,
quiero decir, la de un colosal viejo vagabundo
con la mirada puesta en los senderos,
con la memoria abierta
a la única riqueza que le espera.

Susurraré mi historia
a un trovador errante,
sombra en busca de almas,
para que la reparta
junto a los fuegos ocasionales, tibios,
que depara el camino
a todos quienes sueñan,
con un cisne salvaje.
(Silvio Rodríguez)
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Celebração dos homens-fêmeas

quinta-feira, 8 de março de 2018

Domitila Chungara - Janis Joplin - Frida Kahlo - Elza Soares - Serena Williams

O texto embaixo foi escrito por Fernanda Torres e publicado há um tempo na Folha de Sâo Paulo. Seu enfoque -original, engraçado, polêmico- não resistiu o teste da diversidade. Uma chuva de ataques caiu encima dela. E ela reagiu de maneira errada: pedindo desculpas. Acho que o medo de ver sua imagem arranhada fez com que ela desse uma ré. A intolerância, o sectarismo, o ódio e até o desejo de vingança que permeiam a muitos dos movimentos e manifestações autonomeados de feministas a miúde fazem muito dano a sua própria causa, botando paus na roda da evolução da consciência humana. Precisa-se ser dito: definitivamente, não são as mulheres melhor coisa que os homens. Uns e outros ainda não conseguiram superar sua condição de primatas. Uns e outros deixam ainda muito a desejar. Uns e outros são responsáveis e cúmplices do sistema injusto, doentio e anacrônico que controla nossa sociedade. A ignorância e a banalidade in extremis de dois bobinhos como Bruna Marquezine e Neymar podem server de símbolo suficiente. Então, desculpas de que, Fernanda? De pensar diferente, de ser corajosa, de ser honesta e sincera, de ser autocrítica, de não se exibir, de ser uma boa atriz -e não uma mera celebridadezinha global-, de ser uma boa escritora, produtora, roteirista, esposa, mãe, mulher de colhões, anormal e ousada que em cada ato de sua vida bota em jogo o corpo e alma?... Bom, me desculpa, dona Fernanda, mas aqui vamos ignorar suas desculpas. E vamos republicar, inteirinho, aquele texto saboroso, leve, despojado como a melhor forma que achei para homenagear às mulheres, nesse 8 de março, dia tão particular onde os homens-de-sexo-feminino podem relembrar ao mundo que há uma metade maravilhosa da humanidade que é imprescindível para a evolução harmoniosa e amorosa dos homens de todos os sexos. Obrigada, Fernanda. Fiu, fiu...

         
Mulher

*Por Fernanda Torres

No presente, a mulher ainda apanha, ganha menos do que o homem e fechou um contrato social impossível de ser cumprido, já que cabe a ela não só cuidar da prole, do lar, se manter jovem e desejada, como também trabalhar para contribuir para o sustento da casa. Sobra tempo nenhum para dormir e, muito menos, sonhar com alguma realização que vá além dos deveres do dia.

Nas camadas mais desassistidas, o fim do casamento indissolúvel produziu milhares de lares sem pai, onde a avó e a mãe servem de esteio para a estrutura familiar. Na falta de creches, de escolas, do Estado para ampará-las, a tarefa de criar rapazes que não repitam a violência e o abandono dos pais e meninas que deem um basta na escravidão das mães, é uma missão que beira o inatingível.

A maternidade interfere na vida da mulher de uma forma mais arraigada do que a paternidade na do homem. Temos um relógio biológico certeiro, que coincide com nosso período produtivo, interferindo nas decisões profissionais e pessoais. A fragilidade no emprego, a dependência dos cônjuges, a falta de liberdade de ir e vir passa pela incapacidade do feminino de se desapegar das crias. Um homem, seja ele pobre, rico, preto ou branco, baixo, alto, feio ou bonito, dorme quando está cansado, sai quando deseja e dá prioridade à própria agenda, sem nenhuma pressão que não a da vontade.

Algumas correntes defendem que essa diferença é cultural, mas eu acho que é biológica, carnal, imemorial.

Sou pela licença paternidade. É um passo e tanto para que o casal, unido, divida a responsabilidade dos primeiros meses exaustivos de um bebê. Sou favorável a que toda fábrica tenha uma creche e tenho gratidão pelas babás que me criaram e que criaram meus filhos, cumprindo a função da mãe social, que nos tempos da vovó menina era feito pelas tias, primas, avós e irmãs da casa.

Invejo o companheirismo dos homens, o prazer que eles sentem de estarem juntos e se divertirem com qualquer bobagem. Homem gosta muito de estar com homem. Não me incomoda o machismo, confesso, talvez seja uma nostalgia de infância que carrego. A geração que me criou era formada por machões gloriosos, de Millôr a Miéle, irresistíveis até nos seus preconceitos.

Um editor alemão recusou publicar meu livro, Fim, dizendo que era machista. Explicaram que a obra havia sido escrita por uma mulher e ele disse que não importava, que era machista do mesmo jeito e não iria pegar bem na Alemanha. Está certo o editor, eu sou latina, não consigo entrar numa sauna com todo mundo pelado e me manter isenta.

Os estupros da passagem de ano na mesma Alemanha advogam em favor do editor avesso ao machismo. A violência contra a mulher é menor em lugares onde a igualdade entre os sexos é melhor resolvida. Nos países muçulmanos que visitei, Marrocos, Egito, Malásia, sempre me incomodou o olhar guloso, reprimido e repressor dos homens.

O Brasil está entre um e outro.


Minha babá era um avião de mulher, uma mulata mineira chamada Irene que causava furor onde quer que passasse. Eu ia para a escola ouvindo os homens uivando, ganindo, gemendo, nas obras, nas ruas, enquanto ela seguia orgulhosa. Sempre associei esse fenômeno à magia da Irene. O assédio não a diminuía, pelo contrário, era um poder admirável que ela possuía e que nunca cheguei a experimentar.

Estou certa de que essa é a minha primeira encarnação como mulher.

Apesar do talento para ser mãe, sou menos feminina do que gostaria de ser. Já beirando a idade em que nos tornamos invisíveis ao peão da obra da esquina, rejeito as campanhas anti fiu fiu e considero o flerte um estado de graça a ser preservado. É claro que um chefe que mantém uma subalterna sob pressão constante merece retaliação, mas uma vida de indiferença, onde todo mundo é neutro, não falo igual, digo neutro, sem xoxota, sem peito, sem pau, bigode, ah… é uma desgraça.

Tenho admiração pelas mulheres livres, que não conhecem o medo e são plenas na sua feminilidade. Certa feita, um mulherão me explicou que terminou um casamento sem brigas e sem sofrimento porque o marido ficou homem demais. Na casa dela, pontuou a morena, só havia lugar para um homem, e esse homem era ela.

Nunca fui mulher o suficiente para chegar a ser homem.

A vitimização do discurso feminista me irrita mais do que o machismo. Fora as questões práticas e sociais, muitas vezes, a dependência, a aceitação e a sujeição da mulher partem dela mesma. Reclamar do homem é inútil. Só a mulher tem o poder de se livrar das próprias amarras, para se tornar mais mulher do que jamais pensou ser: um homem fêmea.


* Fernanda Torres é atriz, roteirista, escritora.


Afirmação de princípios

quinta-feira, 1 de março de 2018

-Entrás a la jaula o te morís...
-Entonces me suicido -contestó el pájaro.
-Roberto Margarido-

Mi libertad me ama y todo el ser le entrego.
Mi libertad destranca la cárcel de mis huesos.
Mi libertad se ofende si soy feliz con miedo.
Mi libertad desnuda me hace el amor perfecto.

Mi libertad me insiste con lo que no me atrevo.
Mi libertad me quiere con lo que llevo puesto.
Mi libertad me absuelve si alguna vez la pierdo
por cosas de la vida que a comprender no acierto.

Mi libertad no cuenta los años que yo tengo,
pastora inclaudicable de mis eternos sueños.
Mi libertad me deja y soy un pobre espectro,
mi libertad me llama y en trajes de alas vuelvo.

Mi libertad comprende que yo me sienta preso
de los errores míos sin arrepentimiento.
Mi libertad quisieran el astro sin asueto
y el átomo cautivo, ser libre ¡qué misterio!

Ser libre. Ya en su vientre mi madre me decía
"ser libre no se compra ni es dádiva o favor".
Yo vivo del hermoso secreto de esta orgía:
si polvo fui y al polvo iré, soy polvo de alegría
y en leche de alma preño mi libertad en flor.

De niño la adoré, deseándola crecí,
mi libertad, mujer de tiempo y luz,
la quiero hasta el dolor y hasta la soledad.

Mi libertad me sueña con mis amados muertos,
mi libertad adora a los que en vida quiero.
Mi libertad me dice, de cuando en vez, por dentro,
que somos tan felices como deseamos serlo.

Mi libertad conoce al que mató y al cuervo
que ahoga y atormenta la libertad del bueno.
Mi libertad se infarta de hipócritas y necios,
mi libertad trasnocha con santos y bohemios.

Mi libertad es tango de par en par abierto
y es blues y es cueca y choro, danzón y romancero.
Mi libertad es tango, juglar de pueblo en pueblo,
y es murga y sinfonía y es coro en blanco y negro

Mi libertad es tango que baila en diez mil puertos
y es rock, malambo y salmo y es ópera y flamenco.
Mi libertango es libre, poeta y callejero,
tan viejo como el mundo, tan simple como un credo.

(Libertango, poema de Horacio Ferrer) t 
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